quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Parte 2 de JOHN OWEN: A PESSOA DE CRISTO O FUNDAMENTO DE TODO O CONSELHO DE DEUS

(Segunda parte da tradução do capítulo 4 do livro Christologia de John Owen)


1. Deus se deleita nos Seus eternos conselhos em Cristo – como são os Seus atos de infinita sabedoria, ela é a superior instância em que Ele exerce Sua própria vontade. Consequentemente no cumprimento desses conselhos, de Cristo é enfaticamente dito ser a “sabedoria de Deus” (I Co 1:24), Ele é o conselho de quem Sua sabedoria é completada. E nEle a sabedoria de Deus se faz conhecida: Efésios 3:10. Essa infinita sabedoria sendo de tal modo parte de Sua divina natureza, pelo que todas estas ações são dispostas e reguladas, satisfaz a Sua própria glória em toda a Sua divina excelência. Mesmo entre os homens – de quem a sabedoria comparada com a de Deus é loucura – não obstante é nada nesse particular, em que Ele tem uma verdadeira e racional complacência, adequada aos princípios de Sua natureza, mas em tais ações dessa sabedoria que Ele tem está a relação do próprio objetivo de Sua obra. Como muito mais fez Deus deleitar-se em Si mesmo na infinita perfeição de Sua própria sabedoria e eterna realização para a representação de toda a excelente glória de Sua natureza!
Tais são os Seus conselhos concernentes a salvação da Igreja por Jesus Cristo e por estarem todos nEle e com Ele, por essa razão se diz dEle (Cristo) ser o Seu deleite “antes que o mundo existisse.” Isto é o proposto como o objeto de nossa admiração (Rm 11:33-36).
2. Eles são os atos de infinita bondade, sobre o qual a divina natureza está infinitamente deleitada nEle. Como a sabedoria é o princípio que dirige todas as ações divinas, assim a bondade é o princípio da comunicação que é efetuado nEle. Ele é bom, e tudo faz bem – sim, Ele fez tudo bom porque Ele é bom e por nenhuma outra razão – não da necessidade da natureza, mas pela intervenção de um livre ato de Sua vontade. Sua bondade é absolutamente infinita, essencialmente perfeita em si mesma; o qual não poderia ser se não fosse dEle, naturalmente e necessariamente, agir e comunicar de si mesmo a qualquer criatura sem Deus por si. A divina natureza é eternamente satisfeita com esta bondade; mas este princípio que é a fonte imediata de toda a comunicação do bem é pelo livre ato da vontade de Deus. Assim, quando Moisés desejou ver a glória de Deus, Ele lhe disse: “Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Ex 33:19).
Todas as operações divinas– nas graciosas comunicações de Deus – são provenientes de Sua bondade, pela intervenção de um livre ato de Sua vontade. E o grande exercício e emanação da bondade divina, estão nesses santos conselhos de Deus para a salvação da Igreja por Jesus Cristo. Ao passo que em outros atos de Sua bondade Ele concede de Sua própria conta, nesse assunto Ele concede de Si mesmo, tomando nossa natureza sobre Si. E por esta razão, como Ele expressou o motivo da queda do homem, repreendendo-o por sua insensatez e ingratidão, “Eis que o homem é como um de nós” (Gn 3:22), podemos com toda a humildade agradecer, expressando o sentido de nossa restauração, “Eis que Deus é como um de nós”, como o apóstolo Paulo declara em Filipenses 2:6-8. Esta é a natureza da sincera bondade – mesmo em um grau mais baixo – acima de todos as outras formas de vida ou princípios da natureza, conceder um deleite e complacência a mente no seu próprio exercício e na comunicação de suas ações. Um homem regenerado deleita-se em fazer o bem, e tem abundante recompensa pelo que faz e no que faz. E é o que devemos entender em relação a eterna, absoluta, infinita, perfeita, bondade genuína, que de si atua no mais elevado exemplo que se pode dar! Desse modo são os conselhos de Deus concernentes ao Seu Filho e a salvação da Igreja por meio dEle. Nenhum coração pode entender, nenhuma língua pode expressar a menor porção desse inefável deleite do santo Deus, nesses conselhos, em que Ele agiu e expressou a máxima essência de Sua própria bondade. Deveria então um homem de mente liberal maquinar coisas liberais, porque ele está correto em sua inclinação?
Deve um homem regenerado encontrar um secreto refrigério e satisfação no exercício do que é baixo, fraco, imperfeito, impuro, porque sua velha natureza ainda está embutida com ele?
E não deve Ele, de quem a bondade é sua essência – de quem é constituído, e em quem é o princípio imediato da Sua comunicação– estar infinitamente deleitado na suprema ação sobre o qual a divina sabedoria se fizera mostrar?
O efeito desse eterno conselho de Deus na glória futura é reservado para aqueles que crêem; e nisso será a manifestação da glória de Deus a eles, quando Ele “for glorificado em seus santos” e eternamente “admirado por todos os que crêem”.
Mas o deleite e satisfação de Deus, era, e é, nos seus próprios conselhos, como Ele age Sua infinita sabedoria e bondade.
Consequentemente, o Senhor Jesus é o Seu “deleite continuamente antes da fundação do mundo,” – pois nEle estavam depositados todos esses conselhos e através dEle tudo seria cumprido.
A constituição de Sua pessoa era o único meio por onde a divina sabedoria e bondade poderiam atuar e comunicar de si a humanidade – em tais atos estão o eterno deleite e complacência da divindade.
3. Amor e Graça têm a mesma influência nos conselhos de Deus, como sabedoria e bondade. E a noção das Escrituras sobre isso fortalece a bondade nesta consideração – que o seu objeto são os pecadores e indignos. Deus universalmente comunicou de Sua bondade a todas as Suas criaturas, porém de modo especial em relação àqueles que crêem.
Mas como Seu amor e graça, como são peculiares a Sua eleita – a Igreja escolhida em Cristo antes da fundação do mundo – assim Ele considera primeiramente como um perdido, arruinado pela condição do pecado. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” Rm5:8. Deus é amor, diz o apóstolo. Sua natureza é essencialmente assim. E a melhor concepção da nova natureza agindo nos santos, é o amor; e todos os atos disso são seu total deleite. Este é como o âmago de todos os eternos conselhos de Deus, que rende a Sua complacência inefavelmente nEle. Por esta razão Ele tão maravilhosamente expressa Seu deleite e complacência agindo Seu amor em relação a Igreja: “O SENHOR teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo.” (Sf 3:17). A razão do porque na salvação da Igreja Ele se regozija com júbilo e com alegria – a suprema expressão da divina complacência – é porque Ele repousou em Seu amor, e assim está satisfeito no exercício destes atos.
Mas devemos voltar a particular manifestação de como todos esses conselhos de Deus foram depositados na pessoa de Cristo – para qual fim as seguintes coisas podem ser distintamente consideradas.
Deus fez todas as coisas, no início, boas, extraordinariamente boas. A totalidade de Suas obras foi disposta em perfeita harmonia, beleza e ordem, condizente com a manifestação de Sua própria glória que Ele intentou nela. E como todas as coisas têm sua própria existência individual e funcionamento apropriado, a sua existência é suscetível de um fim, um repouso, ou uma bem-aventurança, conforme a sua natureza e funcionamento – assim, nas várias relações que Ele tem em Seu mútuo apoio, assistência e cooperação, Ele visa a um resultado final – Sua glória eterna. Para desse modo em Sua existência ser o efeito do poder infinito – de maneira que Seu mútuo respeito e fim esteja disposto em infinita sabedoria. Nisso está o eterno poder e sabedoria de Deus glorificado nEle; único em Sua realização, de outra maneira em Sua disposição em Sua ordem e harmonia. O homem é uma criatura feita por Deus, que por Ele poderia receber a glória que Ele almejava e por toda a criação inanimada – tanto as da terra, que era para seu uso, como as de cima, que eram para sua contemplação. Este era o objetivo de nossa natureza em seu estado original. A fim de que sejamos novamente restaurados em Cristo: Judas 18, Rm 1:20.
Deus permitiu a entrada do pecado tanto no céu quanto na terra, por meio do qual toda a ordem e harmonia foram perturbadas. Ainda há características do poder divino, sabedoria e bondade restando nas obras da criação e são inseparáveis de sua constituição. Mas a glória primitiva que redundava em Deus – especialmente como em todas as coisas na terra – provinha da obediência do homem, que era quem estava sob sujeição. Seu bom estado dependia de sua subordinação a Deus de um modo natural, como fez Deus um modo de obediência moral, Gn 1:26-28, Sl 8:6-8. O homem como foi dito, é uma criatura feita por Deus, que por ele Deus pode receber a glória que almeja e em toda a criação inanimada. Este era o objetivo de nossa natureza em seu estado original. Para o qual somos novamente restaurados em Cristo: Tiago 1:18. Mas a entrada do pecado lançou toda esta ordem em confusão, e levou todas as coisas para a queda. Com isto ele foi privado de seu estado original em que era declarado excelentemente bom e foi lançado fora como algo sem valor – sob a carga de quem estava sobrecarregado e assim tem sido todos os dias de sua vida: Gn 3:17-18, Rm 8:20-21.
A divina natureza de nenhum modo se surpreendeu com esse desastre. Deus tinha, desde a eternidade passada, se provido de conselhos para a regeneração de todas as coisas em um melhor e mais seguro estado do que esse que se perdeu pelo pecado. Isto é, a revificação, a restituição de todas as coisas, Atos 3:19-21, ou ajuntando todas as coisas nos céus e terra em uma nova pessoa, Cristo Jesus, Ef 1:10. Apesar de que, isto pode ser mais curiosidade do que edificação em uma escrupulosa inquirição aos métodos ou ordens dos eternos decretos de Deus e a disposição deles em uma subserviência recíproca; porém isto é necessariamente da sabedoria infinita, presciência e imutabilidade de Deus – que Ele não se surpreende com nada, que Ele não lança nenhum novo conselho, por quaisquer eventos nas obras da criação.
Todas as coisas foram dispostas por Ele nesses modos e métodos – e desde a eternidade – o qual a conduz e certamente resulta nessa glória que é enfim intencionada.
A fim de sermos cuidadosos em declarar os eternos decretos de Deus e a atual operação de Sua providência, por esta razão como a liberdade da vontade do homem, como a causa seguinte as suas ações morais, não seja assim infringida – portanto, convém sermos cuidadosos para se referir a tal liberdade injuriosa a vontade de qualquer criatura, como que Deus deva ser surpreendido, na imposição, ou mudar por qualquer de suas ações. Para “fazer conhecidas todas as suas obras desde a fundação do mundo,” e em quem não há “variação nem sombra de mudança .”
Aqui estão, portanto os eternos conselhos de Deus, em que Ele dispôs todas as coisas em uma nova ordem, em Sua própria glória, na santificação da Igreja. E duas coisas podemos considerar: (1) Sua origem; (2) O desejo de seu cumprimento.
(1). Seu surgimento ou origem foi da divina vontade e sabedoria somente, sem qualquer relação com causas externas. Nenhuma razão pode ser dada, nenhuma causa poder ser apontada, desses conselhos, mas a vontade de Deus somente. Conseqüentemente Ele é chamado ou descrito como “o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo,” (Ef. 1. 9;) “o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” verso 11. “Porque quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” Rm. 11. 34–36.
A encarnação de Cristo e Sua mediação, não foram a causa desse eterno conselho de Deus, mas os efeitos dela, como as Escrituras constantemente declaram. Mas, o desígnio de seu cumprimento estava na pessoa do Filho somente. Como Ele é a essência da sabedoria de Deus, todas as coisas foram primeiro criadas por Ele. Mas vendo a ruína de tudo por causa do pecado, Deus viria por Ele — como ele foi pré-ordenado para encarnar — restaurou todas as coisas.
Todo o conselho de Deus neste objetivo está centrado nEle somente. Consequentemente de seu fundamento é corretamente dito ser depositado nEle , e é declarado assim pelo apóstolo: Ef 1:4.
Para o surgimento da santificação e salvação da Igreja na eleição, o decreto de quem abrangeria os conselhos de Deus relativos a Ele.
Portanto, Deus ter “elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade;” (2 Ts. 2. 13;) que é o único objetivo que Ele designou, o outro, o seu sentido e modo.
Mas isso Ele fez em Cristo; “ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor”; que é “para a salvação, em santificação do Espírito.”
E nELE não estávamos verdadeiramente, nem pela fé, antes da fundação do mundo; ainda estávamos então escolhidos nEle, como o único fundamento da execução de todos os conselhos em relação a nossa santificação e salvação.

Em breve a terceira parte estará disponível.