domingo, 16 de novembro de 2008

JOHN OWEN: A PESSOA DE CRISTO O FUNDAMENTO DE TODO O CONSELHO DE DEUS

Estou cada vez mais avesso a artigos pessoais sobre cristianismo. Não que eu esteja me colocando em um patamar acima, muito pelo contrário. Não me considero sequer digno de escrever artigos e postar em sites ou em fóruns ou em boletins. O conteúdo de muitos desses artigos mesmo escritos por irmãos na fé são tão pobres de conteúdo e tão repetitivos em argumentações que dão até um desânimo ao ler. O que eu tenho a escrever de opiniões pessoais (e é muito pouco) prefiro reservar a este meu simplório blog. Portanto, a minha ênfase será nas traduções dos grandes teólogos e crentes do passado, quando o cristianismo ainda não havia enveredado pelos caminhos da apostasia. E um desses grandes teólogos em minha modesta opinião é John Owen.
Esta tradução por ser bem extensa, não será postada de todo. Haja vista que tempo é escasso nos dias atuais, considero mais adequado dividi-la em partes para a sua melhor compreensão.
Que Deus os abençoe e os edifique com esta tradução.


John Owen (1616-1683):

A PESSOA DE CRISTO: O FUNDAMENTO DE TODO O CONSELHO DE DEUS - Parte 1
The Person of Christ the Foundation of all the Counsels of God
(Tradução do capítulo 4 do livro Christologia)
A pessoa de Cristo é o fundamento de todos os conselhos de Deus, até mesmo de Sua própria glória eterna na vocação, santificação e salvação. Minha intenção é a mesma que o apóstolo Paulo expressou em Efésios 1:9-10: “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;”.
Os mistérios da Sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em Si mesmo – são os Seus conselhos relativos a Sua própria glória eterna, na santificação e salvação da Igreja aqui nessa terra, para ser unida com Ele nos céus. A absoluta originalidade disso está em Seu próprio beneplácito, ou a soberania agindo a partir de Sua sabedoria e vontade. Mas por ser tudo efetivado em Cristo – que o apóstolo repete duas vezes: ele deveria congregar todas as coisas em Cristo, em si mesmo – nEle somente.
Deste modo é dito dEle, com respeito a sua futura encarnação e obra de mediação, que o Senhor o possuiu no começo de seu caminho, antes de suas obras; que Ele foi estabelecido para a eternidade, desde o princípio, ou desde antes do começo da terra: Pv 8:21-23. A existência pessoal do Filho de Deus é admitida nessas expressões como eu tenho alhures provado. Sem isso, nenhuma dessas coisas pode ser afirmada sobre Ele. Mas aqui é considerada, ambas, sua futura encarnação e o cumprimento do conselho de Deus por meio delas. Em relação a essa parte “O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras”, Deus O possuiu eternamente com Sua sabedoria – como Ele era eterno, e é eterno, no seio do Pai, no mútuo e inefável amor do Pai pelo Filho, em eterno vínculo pelo Espírito Santo. Mas Ele evidentemente o possuiu “no princípio de seus caminhos” – como Sua sabedoria, agindo na produção de todo o caminho e obra que era publicamente dEle.
O “princípio dos caminhos de Deus”, antes de Suas obras, são Seus conselhos em relação à Ele (Cristo) –como nossos conselhos são os princípios de nossos caminhos, com respeito até as futuras obras. E Ele foi “ungido desde a eternidade”, como o fundamento de todos os conselhos de Sua vontade, e por meio de quem Ele executou e concluiu.
Assim é expresso nos versículos 30 e 31: “Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo;Regozijando-me no seu mundo habitável e enchendo-me de prazer com os filhos dos homens.” Assim é adicionado que desse modo estava antes da fundação do mundo, ou o mundo a ser formado – isto é, antes do mundo ser criado.
Não somente estava se alegrando perante o Pai, mas Seu deleite era no mundo habitável entre os filhos dos homens – antes da criação do mundo. O motivo, a eterna perspectiva da obra que Ele tinha para fazer para os filhos dos homens é intencionada aqui.
E com Ele, Deus estabeleceu o fundamento de todos os Seus conselhos em relação ao Seu amor pelos filhos dos homens. E duas coisas podem ser observadas aqui:
1. Que a pessoa do Filho “estava com Ele”, ou exaltada nesse lugar. “Eu estava com Ele”, disse Ele, “desde a eternidade”. Isto não pode ser falado absolutamente da pessoa do próprio Filho – a divina natureza sendo incapaz de ser assim estabelecida. Mas aqui estava uma peculiar glória e honra pertencendo a pessoa do Filho, como designada pelo Pai na execução de todo o conselho de Sua vontade. Conseqüentemente era essa Sua oração sobre a Sua obra: João 17:5, “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.”
Supor que o Senhor Jesus orava, nessas palavras, para de tal modo ter uma real explanação das propriedades da natureza divina no homem como deveria submeter-se imensamente, oniscientemente e irrestritamente em qualquer espaço – é pensar que Ele orava para destruição e não para a exaltação. Para essa suposição deve ser necessário perder todas as Suas próprias propriedades essenciais e conseqüentemente a vida.
Ele não deu a impressão de orar somente para a manifestação de Sua natureza divina, que estava eclipsada em sua aparência na forma de um servo. Não necessitava expressar isto pela “glória que tinha com o Pai antes que o mundo existisse”. E isto não era outra mas aquela exaltação especial que Ele tinha com Deus-Pai quando disse “desde a eternidade”, como o fundamento dos conselhos de Deus, para a salvação da Igreja. Essa eternal operação que estava entre o Pai e o Filho com respeito a Sua encarnação e mediação – ou Sua incumbência em executar e completar o eterno conselho da sabedoria e graça do Pai – estava na glória especial que o Filho tinha consigo – a “glória que Ele tinha com o Pai antes da criação do mundo.” Para a manifestação aqui Ele agora orava para que a glória de Sua bondade, graça e amor – em Sua particular tarefa da execução do conselho de Deus – poder-se-ia tornar visível. E este é o principal propósito do Evangelho. Esta declaração, como a graça de Deus Pai, conforme o amor, graça, bondade e compaixão do Filho, na incumbência desde a eternidade de cumprir o conselho de Deus, na salvação da Igreja. E aqui expôs os pilares da terra, ou suportou sua criação inferior, o qual, de outra maneira, com seus habitantes, deveriam por causa de seus pecados serem dissolvidos. E esses de quem a eterna, divina pré-existência, na forma de Deus – antecedendo sua encarnação – fazem negação, o faz um mentiroso em despojar toda a Sua glória que Ele tinha com o Pai do mundo ser criado.
Assim temos nisso a totalidade de nosso desígnio. “...no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras” que é Seu conselho eterno em relação aos filhos dos homens, ou a santificação e salvação da Igreja – a possessão do Senhor, a alegria do Filho, como Sua sabedoria eterna – e com quem Ele estava e por quem Ele cumpriria, no que Seu deleite era com os filhos dos homens.

2. Havia inefável deleite entre o Pai e o Filho nesta Sua colocação ou exaltação. “Eu estava”, disse Ele, “cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo;”. Isto não é absolutamente o mútuo, eterno deleite do Pai e do Filho – resultando da perfeição da mesma divina excelência em cada pessoa – que é intencionado. Mas claramente tinha consideração aos conselhos de Deus em relação a salvação do gênero humano por Ele que é Seu poder e sabedoria para este fim.
Este conselho de paz estava originalmente entre Jeová e seu Renovo (Zc 6:13) ou o Pai e o Filho – como Ele deveria encarnar. Por isso Ele era “conhecido, ainda antes da fundação do mundo”(I Pe 1:20), para ser um Salvador e libertador, por quem todos os conselhos de Deus foram executados; e pela Sua própria vontade e cooperação em deliberação com o Pai.
E dessa maneira um fundamento foi o depósito da salvação da Igreja nesses conselhos de Deus – como efetuado entre o Pai e o Filho – que é dito que “vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos;” (Tt 1:2). Apesar de que a primeira promessa formal foi dada depois da queda, ainda assim seria uma preparação da graça e vida eterna nesses conselhos de Deus, com Seu imutável propósito em nos comunicar que toda a fidelidade de Deus estava na pessoa de Cristo. “Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos;”
A vida eterna estava com o Pai – que em Seu conselho que está em Cristo e nEle posteriormente manifestou a nós: “Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada;”. E mostrar a firmeza deste propósito e conselho de Deus com a infalível conseqüência de Sua atual promessa e cumprimento eficaz, “graça” é dito “que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos;” (II Tm 1:9).
E esses conselhos são os deleites de Deus – ou a pessoa de Cristo, como Sua eterna sabedoria em Seu plano e como o significado de seu cumprimento em Sua futura encarnação. Consequentemente Ele assim testifica dEle: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios.” (Is 42:1) como Ele também proclama o mesmo deleite nEle, desde o céu, nos dias em que esteve aqui pela primeira vez:
E eis que uma voz dos céus dizia: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." (Mt 3:17), "E, estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o."(Mt 17:5). Ele é o deleite de Deus, como em quem está todo o Seu conselho para Sua própria glória, na redenção e salvação da Igreja foi o instituidor e o fundador: “Tu és meu servo; és Israel, aquele por quem hei de ser glorificado.” (Is 49:3), que é, “para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” (versículo 6).
Não compreendemos corretamente os conselhos de Deus, quando refletimos nada mais além do que os seus efeitos e a glória que surgiu de seu cumprimento. Isto certamente é verdade, que tudo resultará em Sua glória e a demonstração disto deverá ser por toda a eternidade. A manifesta glória de Deus na eternidade consiste nos efeitos e cumprimento de Seus santos conselhos. O céu é o estado atual do cumprimento de todos os conselhos de Deus, na santificação e salvação da Igreja. Mas não é com Deus como é com o homem. Deixar os conselhos dos homens serem sábios deve necessariamente diminuir sua satisfação deles, por causa de suas conjecturas seus efeitos e eventos são completamente incertos. Mas todos os conselhos de Deus tendo seu completo cumprimento através de revoluções de modo desconcertante e insuperável em toda a criação conhecida, encerra nEle infalivelmente e imutavelmente a grande satisfação e deleite do divino ser nos Seus próprios conselhos.
Deus se deleita no atual cumprimento de Suas obras. Ele não fez este mundo, nem qualquer coisa nele, por seu próprio motivo. Muito menos fez Ele esta terra para ser um teatro para o homem agir sua concupiscência – o uso o qual é agora imputado e sob sofrimentos. Mas Ele “fez todas as coisas” (Pv 16:4, Ap 4:11), que é não somente por um ato de soberania, mas por Seu próprio deleite e satisfação. E um duplo testemunho Ele deu até agora em relação as obras da criação. Na aprovação que deu a tudo que viu: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom;” (Gn 1:31). Essa foi a impressão de Sua divina sabedoria, poder e bondade sobre tudo, como manifestou Sua glória; em que Ele estava profundamente satisfeito. Para imediatamente após isso todas as criaturas capazes de ter noção e compreender sua glória (Jó 38:6-7). Em que Ele descansou de Suas obras – mas um descanso da complacência e deleite do que Ele tinha feito – do que Deus fizera.
Mas o principal deleite e complacência de Deus estão em Seus eternos conselhos. Todo o Seu deleite está em Suas obras, nos efeitos dessas divinas propriedades de quem primitivamente e principalmente exercita a si próprio em Seus conselhos, de onde Ele emana. Especialmente é assim como nesses conselhos do Pai e do Filho, como para a redenção e salvação da Igreja, em que Ele se deleita, e mutuamente regozija reciprocamente na Sua importância. Eles são todos os eternos atos da sabedoria, bondade e amor eterno de Deus – um deleite e complacência em que não é pequena parte da divina bem-aventurança. Essas coisas são absolutamente inconcebíveis e inefáveis a nós; não podemos encontrar o todo-poderoso fora da perfeição. Porém, certamente é, das noções que temos da divindade e Sua excelência e da revelação que Ele faz de si mesmo, que há infinito deleite em Deus – no eterno ato de Sua sabedoria, bondade e amor – em que de acordo com nossa débil e opaca compreensão das coisas, podemos seguramente não ter uma pequena porção da divina bem-aventurança. Auto-existência do próprio imenso ser – por essa razão a auto-suficiência em Si mesmo em todas as coisas – e nessa auto-satisfação – é a principal noção que temos da divina bem-aventurança.
Aguardem a postagem da segunda parte...